“O presidente que salvou o país e o assassino que matou os meus filhos, os meus amigos e os meus conhecidos”
- Pensamento Jornalístico na América Latina
- 7 de out. de 2024
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Faleceu no dia 11 de setembro Alberto Fujimori, ex-ditador do Peru e condenado por crimes contra a humanidade durante seus anos de poder

Por Beatriz Apolari, Isabela Sanches, Julia Moura e Maria Luiza Oliveira
Vítima de um câncer de língua aos 86 anos, Alberto Fujimori deixou um legado contraditório, com acusações de corrupção e uma prisão ordenada por comandar esquadrões de morte em todo o país. Apesar dessas ações, a imagem do ex-presidente divide a população.
Durante uma década, Fujimori foi responsável por reerguer a economia peruana, após a crise da “década perdida” nos anos 90, além de promover múltiplas violações dos direitos humanos, intensa repressão política e rompimento com as instituições democráticas do país.
Com a queda de sua aprovação política e início das investigações dos crimes cometidos, o ditador fugiu para o Japão em 2000, após renunciar à presidência via fax. Depois de um período em exílio, foi condenado a 25 anos de prisão em 2009, mas obteve sua condenação revogada em dezembro de 2023.
O ex-ditador morreu em casa e o ocorrido foi anunciado por sua filha e herdeira política, Keiko Fujimori, via rede social. Ela também é considerada por muitos uma figura política controversa, acumulando acusacões de uso de dinheiro ilegal em suas campanhas.
O início da Era Fujimori
De acordo com a professora Yasmin Calmet Ipince, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autora do livro “Violações de Direitos Humanos No Peru de Fujimori: Violência subversiva e antisubversiva, 1990-2000”, seu governo foi sustentado por uma forte estratégia política, que soube articular o populismo e as necessidades das camadas mais altas da sociedade peruana durante o seu mandato.

“Ele fez o que nenhum outro candidato na época fazia, de ir com o povo, sair com o povo”, comenta Calmet, destacando sua capacidade de gerar identificação com as camadas mais baixas da população, ao trabalhar com os camponeses, por exemplo. “Ele tinha um slogan que dizia ‘era um presidente como tu’”, completa.
No entanto, sua popularidade não ficou restrita às camadas mais pobres, uma vez que também articulou a reinserção do país no mercado financeiro, com a promoção de reformas neoliberais, favoráveis à elite econômica peruana. A década de 80, que antecede seu primeiro mandato e é considerada a “década perdida” para os países latino-americanos, foi marcada por uma grave crise econômica e social, com altas na inflação, no desemprego e na dívida externa.
Eleito em 1990, pelo partido Cambio 90, Fujimori atingiu o feito de estabilizar a economia peruana e voltar com o crescimento do país a partir de 1994. A saída da crise foi possível por conta de um pacote de reformas neoliberais chamadas de Fujishock, que incluíam a venda de estatais, a desregulação dos mercados e a abertura econômica.
Apesar do feito de estabilizar momentaneamente a economia, a forma com que ele enfrentou grupos extremistas de esquerda dividiu e divide até hoje opiniões. O Peru vivia um contexto de conflitos armados, nos quais os grupos políticos de esquerda radicais Sendero Luminoso e Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) promoviam constantes ataques à instituições e indicadores de modernidade, alicerçados em uma ideologia comunista pouco definida e desorganizada.
“Os governos anteriores não tinham conseguido dar uma solução a esse problema, não estavam conseguindo impedir [as guerrilhas]”, contextualiza Yasmin. “Ele ganha mais legitimidade e divide a opinião pública no momento que se captura Abimael Guzmán, que era o líder do Sendero Luminoso, em 1992. Isso fez com que a população acreditasse ou tivesse uma ideia de que, por exemplo, o terrorismo estava acabado, e que com isso a situação social do país melhoraria”, conclui a pesquisadora.
Autogolpe e segundo mandato
A repressão nos embates entre o governo e os dois grupos era violenta, com a estimativa de mais de 70 mil mortes durante seus enfrentamentos, segundo um levantamento da Comisión de Verdad y Reconciliación, de 2001. É nesse contexto de intensos conflitos armados que Fujimori realiza um autogolpe, suspendendo a Constituição Peruana e dissolvendo o Parlamento para concentrar o poder em suas mãos.
A partir de uma nova Constituição, formulada em 1993, Fujimori conseguiu se eleger para um segundo mandato. Mais popular do que nunca, ele se elegeu em 1995 com um Congresso recém-unicameral repleto de seus partidários.
O segundo mandato foi marcado por uma aproximação com as Forças Armadas, uma crescente inquietação da população com a restrição da liberdade de expressão e por um interesse nas denúncias criminais que estavam surgindo contra Fujimori e seu chefe do Serviço Nacional de Inteligência (SIN), Vladimiro Montesinos.
Renúncia e condenação
Alegando que a Constituição de 93 havia sido promulgada depois dele se eleger pela primeira vez, Fujimori concorreu e ganhou a corrida para o seu terceiro mandato consecutivo. De acordo com Yasmin Calmet, o ex-ditador tentou a eleição novamente para
que não fosse à justiça e julgado como um cidadão comum.
“Na realidade, a ideia de ele ter se recandidatado e de se eleger por uma terceira vez era para evitar ele de ser julgado, por isso ele foge ao Japão.” afirma Calmet. “É um caso interessante porque ele é o primeiro presidente na América Latina que foi julgado e condenado pelos crimes [que cometeu] de lesão à humanidade”, completa a professora.
Eleito, teve pouco tempo de estabilidade: um vídeo de Vladimiro Montesinos entregando dinheiro a um parlamentar da oposição vazou. Com isso, além das pressões de diversos setores da sociedade peruana, o vídeo vazado e as crescentes denúncias de corrupção em seu governo acarretaram em sua renúncia, em 19 de novembro de 2000, e na sua fuga para o Japão.
Com um pedido de prisão ordenado pela Interpol, por conta da prática de crimes contra a humanidade, Fujimori foi preso em 2005 e em 2007 deu-se início ao seu julgamento no Peru. Ele foi condenado em 2009 por comandar esquadrões da morte que foram responsáveis pelos massacres que aconteceram no bairro Barrios Altos e na Universidad de la Cantuta.
Fujimori chegou a receber um indulto em 2017 por conta de sua saúde, mas foi revogado em 2019, ano em que retornou à prisão e onde ficou até dezembro de 2023. Por conta do estado de saúde, lhe foi concedido que cumprisse o resto da pena em prisão domiciliar.
Legado Fujimorista
De acordo com a professora Yasmin Calmet, as consequências de Fujimori no poder ultrapassaram as barreiras físicas, tendo seu legado e ideologia se enraizado no imaginário político peruano. “O fujimorismo deixou grandes raízes políticas e estruturais, inclusive no modo de fazer política, no jeito como se faz política no Peru. Então, enquanto não se modifique, ou não haja uma reforma substancial da própria política no país, o fujimorismo vai fazer parte do nosso sistema político” completa Yasmin.
A imagem de Fujimori ainda hoje divide o país. Para a professora, essa polarização pode ser resumida em uma frase: “O presidente que salvou o país e o assassino que matou os meus filhos, os meus amigos, os meus conhecidos.”




Olá meninas, que tema dificil de tratar. Uma dualidade refletida na frase de destaque do texto. O material está realmente muito bom. Adorei a entrevista com a Yasmin. Parabéns para o grupo.