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O colapso econômico da Argentina: como o país se tornou o maior devedor do FMI

  • Foto do escritor: Pensamento Jornalístico na América Latina
    Pensamento Jornalístico na América Latina
  • 16 de nov. de 2024
  • 5 min de leitura

Imagem de nota de 100 dólares com foto do presidente eleito da Argentina, Javier Milei,16/11/2023. REUTERS/Matias Baglietto/CNN

Por Isabela Dalaqua, Julia Ferreira e Sofia Azenha


Com a execução do “Motosserra”, plano de corte de gastos públicos de Javier Milei, a Argentina está em seu décimo mês consecutivo de superávit e a inflação está em 193% ao ano após passar meses acima de 200%, divulgou o ministro da Economia, Luis Caputo, em suas redes sociais.


O atual presidente argentino assumiu em dezembro de 2023 e promete, desde o período eleitoral, estabilizar o dólar, reduzir a inflação e limpar a macroeconomia. 


Em contrapartida, a taxa de argentinos abaixo da linha de pobreza subiu para 52,9%, enquanto 18,1% da população está em situação de indigência, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).


Quando Milei assumiu a presidência, a Argentina já enfrentava um acúmulo de dívidas de anos e um longo histórico de crises financeiras. De acordo com dados da Reuters, o país fechou 2023 com a inflação anual em 211%, maior número desde 1990. 


Apesar do atual cenário econômico argentino, o país foi considerado um dos mais ricos do mundo no século XX e atraiu diversos imigrantes, que somavam 30% da população. Entre 1870 e 1914, a Argentina passava pela chamada “Idade de Ouro”, possuindo um PIB per capita que ultrapassava os números da Alemanha, França e Itália. 


O declínio teria começado na década de 40, quando o país passou a seguir a lógica populista do Peronismo. De acordo com Marcelo Fernandes, professor de Relações Internacionais na Unesp Marília, “ele (populismo) amplia os gastos públicos em benefício da população, fazendo políticas públicas mais universais, e a partir dessa ampliação, gera maiores gastos, maiores custos por parte do Estado”. 


O país enfrentou dificuldades no pagamento de tais benefícios, resultando em um acúmulo de dívidas públicas com juros acima do que poderia pagar. Em 2000, a economia entrou em colapso, uma vez que nem mesmo as negociações eram pagas, e recebia cada vez menos investimentos internacionais. No período de um ano e duas semanas, cinco presidentes passaram pelo país, e desse momento em diante, a Argentina passou por uma sequência de altos e baixos.


Durante o segundo mandato de Cristina Fernández de Kirchner (2011-2015), a economia saltou e caiu em todos os anos. Já no governo Macri (2015-2019), o país passou por 3 anos de recessão e, somente em 2017, conseguiu subir 2,8%. Nesse período, a inflação era de 53,8% e a taxa de pobreza chegava a 35,3%. Ao fim de seu mandato, precisou recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para solicitar um pacote de ajuda, que foi refinanciado na administração seguinte. 


“E aí é onde entra o Milei. O Milei acaba ganhando a eleição, dizendo que se vá a todos os populistas, nós temos que fazer um choque monetário muito grande, fazer um plano motosserra, para começar a ajustar 70 anos de equívocos na nossa política macroeconômica para colocar a Argentina novamente nos eixos a curto, médio e longo prazo. E, dessa maneira, começar a recuperar a credibilidade do país, a economia do país, para que, no ponto mais à frente, a Argentina volte a ser aquilo que era no início do século XX”, afirma o professor.


Mudanças na economia e planos estabelecidos por Milei


Em sua campanha, Milei prometeu soluções para o mercado financeiro argentino e criou o “Motosserra”, nome metafórico para o plano de corte de gastos. Ao assumir o poder, eliminou um terço dos gastos públicos de uma só vez, reduzindo as emissões de moeda - principal causa da inflação - e passando do déficit ao excedente fiscal, ou seja, mais receitas do que despesas. O plano também tinha como objetivo dar mais confiança aos investidores, destravando, assim, investimentos privados.


Além disso, a fim de reduzir a dívida com o Banco Central, Milei baixou a taxa de juros paga pelos passivos remunerados e desvalorizou o peso, corrigindo a taxa de câmbio oficial e quase igualando-a à taxa de câmbio do mercado. Isso produziu um ajuste nos preços relativos, causando um salto na inflação superior aos juros pagos pela dívida com o Banco. Assim, os passivos remunerados ficaram com taxas de juros reais negativas.


Para cortar os gastos, o presidente reduziu as secretarias e os ministérios, fez corte de funcionários públicos, suspendeu obras públicas, reduziu subsídios aos setores de energia e transporte, suspendeu a publicidade do governo por um ano e reduziu as transferências discricionárias do Estado para as províncias. 


Os ministérios que foram suspensos por Milei foram os da Educação; Trabalho; Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; Ciência Tecnologia e Inovação; Cultura; Mulheres, Gênero e Diversidade; Turismo; Esporte e Desenvolvimento Territorial e Habitacional. A quantidade de funcionários públicos demitidos em abril foi de 24 mil, e em setembro, 1,5 mil.  


De certa forma, a inflação desacelerou, mas a base de comparação também subiu, já que os preços dos itens básicos como água, gás, luz e transporte aumentaram.

Em sua posse, o presidente alertou que a economia pioraria antes de melhorar, por isso, apesar do custo social, as medidas animaram o mercado financeiro. Além disso, no primeiro semestre do ano, a Argentina registrou seu primeiro superávit desde 2008, que é quando a arrecadação é maior que os gastos. No entanto, o fator longo prazo tem desanimado aqueles que apoiaram as medidas de Milei. 


Consequências das medidas e previsões


Com os cortes feitos por Milei nesse primeiro ano de mandato, a macroeconomia está se estabilizando. Segundo dados da agência de estatísticas Indec, foi a primeira vez em quase um ano que a inflação ficou abaixo de 200%. “O problema é que do ponto de vista do PIB, do ponto de vista do câmbio, do ponto de vista da inflação, funciona. Só que as pessoas não comem PIB, as pessoas não comem inflação baixa, as pessoas não comem câmbio baixo”, expõe Marcelo Fernandes. 


O professor explica, ainda, a lógica utilizada para os cortes de gastos e como isso impacta na situação social da população. Quando a economia tem uma queda do seu giro e aquecimento, isso gera desemprego, uma vez que o Estado é um grande empregador. Com menos empregos, ocorre menos consumo interno. “Menos consumo você desarticula a economia inteira, é o que está ocorrendo hoje na Argentina. E assim gera  uma espiral negativa contra a economia. Só que isso tem um efeito positivo na inflação, porque se tem menos gente comprando, menos gente comendo, menos gente gastando, o comerciante vai vender menos, com os produtos na prateleira ele vai baixar o preço.” 


Os preços caem, mas o poder de compra dos consumidores também. “Para uma doença que poderia ser resolvida com paracetamol, você dá antibiótico”, conclui Marcelo.


Segundo o professor, espera-se que nos próximos anos o governo Milei consiga renegociar suas dívidas com mais facilidade, considerando o alinhamento automático aos EUA, que é o principal acionista do FMI. Do ponto de vista político, Milei faz parte desse arco à direita internacional, com apoio de Trump e de políticos da extrema-direita na Europa, o que influencia a política, cultura, economia e os direitos sociais da América Latina. 


Em relação ao Brasil, as perspectivas são de queda nas relações comerciais. No primeiro semestre de 2024, ocorreu uma diminuição de 28% nas exportações brasileiras para a Argentina. Ainda assim, os argentinos continuam sendo o quarto maior destino das exportações do Brasil. 


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