top of page

De deserto a local de despejo: o acúmulo de roupas descartadas no Atacama

  • Foto do escritor: Pensamento Jornalístico na América Latina
    Pensamento Jornalístico na América Latina
  • 3 de nov. de 2024
  • 5 min de leitura

Pilhas se estendem por quilômetros, prejudicando a população local e revelando um lado obscuro por trás da chamada fast-fashion


Por Tiago Trombini, Vivian Ferreira, Brida Correia e Marina Merli


Foto: Antonio Cossio/picture alliance via Getty Images

 Foto: Antonio Cossio/picture alliance via Getty Images


O deserto do Atacama se encontra na região do extremo norte do Chile, e tem por volta de 1000 km de extensão. É o deserto mais seco do mundo, proporcionando pouca oportunidade para o desenvolvimento humano. Essa dificuldade, porém, tem sido ainda mais agravada para a população local nos últimos anos: uma emergência ambiental surgida com o aumento da produção de roupas baratas e de uso rápido que, descartáveis, acabam despejadas no deserto.


O termo fast-fashion, ou moda rápida, encabeça esse problema ambiental, sendo utilizado para definir a produção e consumo de roupas de má qualidade, que serão utilizadas poucas vezes e, em seguida, descartadas. Segundo documento do pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o volume da produção de roupas praticamente dobrou nos primeiros 15 anos do século XXI, indicando a ascensão da fast-fashion o agravamento do problema de sobrecarregamento de lixo em países mais pobres, que recebem esse descarte.


O consumismo desenfreado dessa moda rápida relega a produção excessiva a aterros e lixões clandestinos, como é o que acontece no deserto do Atacama. Essas roupas, porém, são compradas, utilizadas e descartadas em regiões ricas como Estados Unidos, Europa e Japão. Segundo a revista “Forbes”, as roupas fast-fashion hoje são utilizadas menos de cinco vezes antes do descarte.


As roupas chegam ao Porto de Iquique, uma das maiores cidades do norte do Chile, e de lá seguem para o deserto. Fundado em 1975, o porto busca fomentar a economia local e, para isso, não conta com tarifas e impostos. Segundo o jornalista John Bratlett, especialista em temáticas chilenas, “os produtos podem entrar no porto sem tarifas, e só é paga uma pequena taxa caso eles sejam exportados para fora das duas regiões mais ao norte do Chile, indo para o resto do país. Dessa forma, esses bens de menor valor, como os têxteis, estão efetivamente presos no Deserto do Atacama”.


Dessa forma, o Chile se tornou um dos maiores importadores mundiais de roupas de segunda mão, com ondas de mercadorias sendo importadas com o incentivo da não-taxação Os sistemas de descarte não foram capazes de acompanhar esse influxo. “Com poucas opções de reciclagem disponíveis, é mais barato e fácil para os importadores jogarem as roupas de menor qualidade ao léu ao invés de reciclá-las”, salientou John.


Foto: Martin Bernetti / AFP

Essas roupas descartadas pelos importadores em Iquique são levadas até a periferia de Alto Hospicio por meio de caminhões e carretas, onde são recomercializadas, por exemplo, em La Quebradilla, um dos maiores mercados a céu aberto do Chile. Para o jornalista, os moradores foram incorporados à corrente das revendas para fazer sua fonte de renda e sobrevivência, “e as vestimentas de segunda mão dominam as vidas da população dessa região.”


Tudo que não pôde ser revendido acaba nos lixões clandestinos do deserto, que também são alvos de catadores, submetidos à insalubridade constante. Essas roupas passam anos em áreas abertas, em decomposição, e oferecem riscos à saúde. John conta que, em suas apurações in loco, podia ver pilhas de roupas pegando fogo. “As pessoas estavam queimando as roupas para se esquentar e para se livrar delas. A fumaça dessas queimadas é tóxica, e esse era um dos principais efeitos negativos na saúde da população local.”, relatou o especialista.


Além disso, muitas das roupas descartadas são feitas de poliéster, um material derivado do petróleo, que é mais barato e predominante nas indústrias de roupas fast-fashion. Ao contrário de peças produzidas com materiais de qualidade, como o algodão, por exemplo, que demora 2 anos para se decompor, o poliéster se desintegra totalmente em 200 anos. À céu aberto, as roupas se rasgam e soltam microplásticos, que entram em contato direto com catadores, ou podem ser levados pelo ar aos oceanos e às casas, afetando a população e a fauna local.


Foto: Martin Bernetti / Getty Images / Exame

Em meio à essa quantidade de lixo que chega à Alto Hospicio anualmente, foram criadas iniciativas para melhorar a situação, ainda que algumas delas tenham enfrentado problemas. A Ecocitex, por exemplo, busca converter as roupas em fios de vestuário, incluindo lã sintética, se transformando em roupas novas. Entretanto, a instalação da empresa, em Santiago, foi vítima de um incêndio em 2023, e a empresa necessitou de ajuda de doações para se reerguer.


Outro projeto, a EcoFibra, fundada em 2018 por Franklin Zepeda, produz paineis de material isolante a partir de fibras têxteis recicladas para a construção de casas. John Bratlett, porém, relata que a empresa estava dando “um passo na direção certa, mas era um projeto caro, e o dono estava tendo que cobrar as pessoas para remover seu despejo têxtil”, e por isso o projeto não foi um sucesso completo.


Segundo o jornalista, “não existe quase nenhuma movimentação no setor público do Chile para abordar e solucionar o problema”. No Chile, o descarte de roupas em depósitos legais também é proibido, uma vez que as grandes pilhas causam instabilidade no solo. A fiscalização dos depósitos ilegais e lixões irregulares também é fraca, considerando a situação de comunidades empobrecidas, como é o caso de Alto Hospicio. Dessa forma, os caminhoneiros são livres para transportar as roupas, e as pilhas crescem sem qualquer controle, uma vez que os destinos corretos são inexistentes, e os ilegais não são vistoriados pelos aparatos estatais.


Uma das soluções mais promissoras para o deserto do Atacama seria a adição dos bens têxteis na Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor (REP), que regulamenta a comprovação da destinação correta dos resíduos e a responsabilidade financeira dos fabricantes por seus produtos. Essa lei já foi aprovada em muitos países desenvolvidos, como Japão, Canadá e Austrália, e está em vigor no Chile desde 2016. Ela abrange, porém, apenas seis categorias de resíduos, como eletrônicos, embalagens e pneus, excluindo os produtos têxteis. Para John, ainda que a adição esteja em discussão há muito tempo, nada é garantido. ”A legislação é lenta e os lobbies são ferozmente contrários à sua aprovação”, completa.


Segundo o especialista, um esforço social seria outro mitigador do problema, ainda que reconheça os limites para a ação individual e comunitária frente ao consumismo e à produção em massa em países estrangeiros. “Precisa haver, portanto, mais esforço para conscientizar e mudar as atitudes em países consumistas, existe uma lacuna de conscientização sobre o impacto da fast-fashion nesses países. Países mais pobres, como sempre, sofrem com as consequências desse problema”, afirma.


A situação no deserto do Atacama poderá ser combatida, além disso, com mudanças na lógica da produção em massa e de peças descartáveis. “Incentivar as manufaturas a fazer roupas de melhor qualidade e que durem mais também poderia ajudar, uma vez que encorajaria pessoas a conservar ao invés de substituir suas roupas”, finaliza o jornalista.

Comentários


bottom of page