Venezuela: como a economia do petróleo influencia as relações geopolíticas
- Pensamento Jornalístico na América Latina
- 15 de set. de 2024
- 3 min de leitura

Por Isabela Giro, Luísa Tabchoury, Pedro Couto e Pedro Santos
Na quinta-feira (12), os Estados Unidos impuseram sanções de visto americano a 16 autoridades do governo de Nicolás Maduro, como líderes do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ). Além disso, os EUA também já sancionaram outros 140 funcionários venezuelanos.
Outro desdobramento das eleições da Venezuela aconteceu na noite do dia 7 de setembro, em que Edmundo González recebeu asilo político do governo da Espanha. Depois de se refugiar por dias na embaixada da Espanha na cidade de Caracas, o opositor de Nicolás Maduro conseguiu o aceite da solicitação de abrigo fora do país.
Embora o presidente venezuelano tenha descumprido o Acordo de Barbados, que garantia direitos políticos e um processo de eleições legítimas no país, os Estados Unidos e países da União Europeia estão acanhados em impor sanções econômicas devido às atividades de exploração de petróleo no país latino-americano.
Acordo de Barbados
Em outubro de 2023, foi assinado o Acordo de Barbados, que definiu a realização de eleições na Venezuela no segundo semestre de 2024. Além disso, o processo eleitoral seria vigiado pela União Europeia, o Centro Carter e a Organização das Nações Unidas (ONU).
Nesse sentido, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela anunciou também ter feito o convite à Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), a Comunidade do Caribe (Caricom), a União Africana e os Brics para observarem as eleições no país.
No entanto, dois órgãos não participaram no acompanhamento do processo eleitoral. A Venezuela cancelou o convite à União Europeia após o bloco europeu aumentar as sanções até 10 de janeiro, data da posse do presidente eleito. Por outro lado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou sua desistência após Nicolás Maduro afirmar que as urnas eletrônicas brasileiras "não são auditadas".
Após o CNE declarar a reeleição do presidente venezuelano sem a divulgação das atas das eleições, iniciou-se um processo de repressão e prisão dos opositores de Maduro. Logo, os Estados Unidos voltaram com as sanções contra o país, mas com algumas ressalvas devido às reservas venezuelanas de petróleo.
Segundo a Profa. Fernanda Brandão, coordenadora de Relações Internacionais da Faculdade Mackenzie Rio, o petróleo é “um bem estratégico” e isto acaba gerando uma disputa entre os países que buscam explorar essa riqueza.
Licença Geral 44A
Em abril deste ano, os Estados Unidos impuseram um novo entrave para a exportação do petróleo da Venezuela. Anteriormente, a licença 44 permitia a presença da commodity venezuelana no mercado internacional sem restrições. Contudo, o Departamento do Tesouro americano determinou a substituição dela pela licença 44A, que obriga todas as empresas exploradoras de petróleo na Venezuela a pedirem a autorização da OFAC (Agência de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA) para atuarem.
No contexto mais amplo, a decisão exemplificou a cautela dos EUA com a Guerra na Ucrânia, já que o conflito impede a compra dos combustíveis fósseis russos pelos americanos. Além de favorecer empresas estadunidenses, a medida também dificulta as relações de exportação com países europeus e asiáticos, visto que agora estão sujeitos a uma intermediação de um órgão americano.
A empresa estadunidense Chevron, por exemplo, não teve suas operações impactadas. Isso porque, está especificamente sujeita a Licença 41, renovada mensalmente em função de uma parceria com a Petróleos da Venezuela.
Matriz energética mundial
Um mês antes do anúncio da licença 44A, a Venezuela se tornou o sexto maior vendedor de petróleo para os Estados Unidos. De acordo com o relatório da EIA (Administração de Informação de Energia dos EUA), só em fevereiro, o país adquiriu 5,5 milhões de barris de petróleo.
Num cenário de crescente preocupação de cientistas com o aquecimento global, a queima dos combustíveis fósseis para a geração de energia tem sido um intenso contribuidor para o agravamento da crise climática.
Para o relatório do observatório europeu Copernicus, o ano de 2023 foi considerado o mais quente dos últimos 100 mil anos, com recordes de temperatura documentados em quase todo o globo. A temperatura média da Terra ficou em 1,48°C mais quente em comparação ao nível pré-industrial, o que é muito próximo dos 1,5°C estabelecido por cientistas como seguro para evitar maiores desastres climáticos.
Apesar do aumento da presença internacional de matrizes energéticas renováveis e menos poluentes, a exploração de petróleo ainda se consagra como a segunda maior causa de emissões de gases estufa no mundo.
No caso da Venezuela, a produção de energia depende fortemente da exploração de petróleo e gás natural. Isso se dá tanto pelas suas grandes reservas do combustível fóssil, quanto pelo seu peso na economia venezuelana, historicamente prejudicada pelos embargos internacionais.




Vocês trouxeram muitas informações importantes para compreensão da relação entre economia e geopolítica. Em especial quando estabelecem n]ao somente o petróleo como estratégico, mas das disputas. A entrevista com Fernanda Brandão ficou excelente. Parabéns grupo. Realmente muito bom.