Mesmo com alta reprovação do governo, Peru não terá eleições este ano
- Pensamento Jornalístico na América Latina
- 31 de ago. de 2024
- 3 min de leitura
O governo peruano enfrenta altos níveis de desaprovação desde a piora na crise política agravada pela prisão de Pedro Castilho

Por Isabela Paulino, Letícia Rosa, Luísa Tabchoury e Pedro Santos - Grupo A
O ex-presidente Pedro Castillo fora preso por tentativa de golpe e corrupção. Assim, a sua vice Dina Boluarte assumiu o cargo com o aval do Congresso. Dina disse, no início das discussões, que não assumiria o cargo de Castilho. Porém, em 2022, ela toma posse em meio a protestos. Desde então, o país enfrenta problemas políticos internos e a presidenta sofre uma grande reprovação.
Desde a posse de Boluarte, a população organizou manifestações com pedidos de antecipação das eleições. O Peru havia prometido aceitar o pedido, no entanto, o governo acabou adiando o pleito, que aconteceria em 2024, para 2026. A Presidenta Dina reforçou, em sua declaração dada em rede nacional em julho, que “está encerrada esta questão das eleições antecipadas, vamos continuar a trabalhar com responsabilidade, no respeito pelo Estado de direito, pela democracia e pela Constituição, até julho de 2026”.
A repressão policial foi uma estratégia do governo durante os protestos contra a estrutura política formada. A justificativa da violência foi a proteção do povo peruano contra medidas políticas de esquerda. Algumas das reivindicações são: à dissolução do Congresso por não representarem corretamente a população pobre e rural do Peru; a novas eleições gerais diretas; a convocação de uma Assembleia Constituinte para promulgar uma nova Constituição. Nesse contexto, a presidente chegou a usar o termo “terruqueo”, que está ligado à direita para atribuir uma imagem de terroristas e vândalos, ao falar sobre os manifestantes.
Com críticas devido a repressão, a presidente tem um dos piores índices de aprovação da América do Sul, ficando atrás apenas de Nicolás Maduro. Segundo o relatório da CB Consultoria de Opinión Pública, o governo de Dina Boluarte é visto como muito ruim por 43,6% da população peruana. No total, a visão negativa do governo chega a 64,4% no mês de agosto de 2024. A taxa ainda é mais alta que no mês anterior, julho, em que o governo foi reprovado por 62,2% dos consultados. No mesmo período de agosto, o governo venezuelano teve 68,7% de reprovação, passando por eleições e turbulência política interna e externa. Na pesquisa, é notado que 17,1% da população julga o governo como ‘muito bom’.
Questionado sobre como a cobertura sarcástica da mídia influencia na opinião da população peruana contra o governo, o pesquisador e professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru, James Dettleff disse, em entrevista à Las Noticias que “uma grande parte da população há muito tempo perdeu a confiança nos meios de comunicação tradicionais e a informação é mais divulgada através de meios de comunicação e redes alternativas. Nesse sentido, boa parte da população peruana que não acredita em discursos oficiais consegue ver nessas sátiras algo mais próximo dos seus próprios sentimentos. Mas, para afirmar isso com toda a certeza, seria necessário fazer uma pesquisa de recepção, o que não fiz. Porém, as pesquisas mostram que o governo não tem credibilidade junto à população.”
As diferenças na representação política da população peruana das cidades e das áreas rurais também foi tema de debate nos protestos. O professor comentou como isso afetou a polarização política do país: “esse é o grande problema do país. Existe uma população indígena andina muito importante, que tem sido historicamente relegada e discriminada por grupos econômicos e políticos hegemônicos”. James ainda acrescenta que “Castillo era uma pessoa que faz parte daquela população andina (embora fale espanhol) e por isso sua conquista da presidência gerou tanta rejeição nos grupos hegemônicos, que não aceitavam que uma pessoa andina pudesse ser presidente, e reclamaram de fraude (sem qualquer prova). Isto polarizou ainda mais a população e aprofundou as diferenças entre as pessoas das grandes cidades e do litoral (que detêm o poder há décadas) e as pessoas dos Andes peruanos, principalmente das zonas do sul”.
Por fim, James Dettleff afirma que a população das cidades e litoral reforçaram ainda mais os estereótipos de “terroristas” e “suspeitos” dos povos andinos do país após a polarização política acentuada.




Olá pessoal, que legal. Adorei a entrevista com o James. O Peru vive uma crise, como alguns outros países de nossa região e o material conseguiu traduzir as dificuldades enfrentadas pela população. A escolha do Peru foi muito interessante, pois é um país que sabemos pouco e vocês trouxeram dados muito interessantes. Parabéns ao grupo.