Esportes eletrônicos e a América Latina
- Pensamento Jornalístico na América Latina
- 10 de nov. de 2024
- 7 min de leitura
Atualizado: 27 de jun. de 2025
Entenda como a modalidade competitiva dos videogames se torna cada vez mais popular entre os países latinoamericanos
Por: João Pedro Ferreira, Carlos Eduardo Staff, Kauê Nunes e Gustavo Bastos
Crescimento do cenário
É inegável que o mercado de games vem conquistando mais espaço no cenário global, especialmente no setor do entretenimento. Em termos de comparação, a empresa alemã Statista espera, segundo projeções e pesquisas, que o mercado de games alcance, até 2029, 691,3 bilhões de dólares, representando, assim, um crescimento anual de 7,79%. Enquanto isso, estima-se que a indústria cinematográfica, mais antiga e “consolidada” que os games, alcance, até 2029, um faturamento de 104,4 bilhões de dólares, com uma taxa de crescimento anual de 5,68%.
Segundo uma pesquisa realizada pela empresa Newzoo, estima-se que o mercado global de games gerará uma receita de 187, 7 bilhões de dólares no ano de 2024, o que representa um crescimento anual de 2.1%. Além disso, espera-se que o número de jogadores (em PC e consoles) chegue a 3.42 bilhões.
Nesse sentido, a América Latina é a segunda região global que mais cresce anualmente, com uma taxa de 5.6%. Além disso, a região representa 11% do mercado global de games, com um total de 355 milhões de jogadores. A Pesquisa Game Brasil (PGB) ainda analisou que cerca de 65,8% da população de Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru joga videogames.
Não somente isso, mas na América Latina há uma notória popularidade com relação aos esportes eletrônicos, comumente chamados de eSports, que representam a modalidade competitiva dos jogos eletrônicos, com torneios, torcidas e equipes profissionais competitivas.
A PGB apurou que 63% dos entrevistados se dizem familiarizados com a modalidade dos jogos competitivos. Dentro desse número, 56,1% gostam de assistir a partidas de eSports, e 39,2% afirmam praticar esportes eletrônicos.
A popularidade da modalidade competitiva não é refletida apenas por números, mas também pela criação de organizações que têm conquistado tanto o público latino, como uma expressividade em torneios mundiais.
Segundo o jornalista Wesley Pereira, antes havia, em relação aos eSports, uma “polarização do Brasil como essa força de estar sempre engajada, tanto em questão de comunidade, organizações, investimento, etc”. Ele ainda complementa que, atualmente, “a gente está vendo que o cenário latino-americano, até mesmo a América do Sul, está cada vez mais forte. A gente está vendo organizações começando a participar das principais ligas que nós temos hoje”.
Expressividade Latina
Quando se pensa em organizações latino-americanas de eSports, a Argentina é um dos principais pilares em relação à popularidade e à audiência.
Uma das principais equipes argentinas no cenário dos jogos eletrônicos é a KRÜ Esports, fundada em outubro de 2020 pelo jogador de futebol argentino Sergio Agüero. A organização, que também tem sido administrada (desde 2023) pelo jogador de futebol Lionel Messi, contribui para o crescimento da cultura latina no cenário dos games.
A equipe tem se destacado em algumas modalidades, como Valorant, um dos jogos FPS (tiro em primeira pessoa) mais populares globalmente em termos de faturamento e audiência. A KRÜ foi, por exemplo, a única equipe latina (e também uma das únicas mundialmente) a se classificar para todas as edições do Valorant Champions, torneio mundial de Valorant.
A equipe feminina da KRÜ, nomeada KRÜ Blaze, também chama a atenção no cenário, sendo a única equipe hispano-americana a conquistar uma vaga para o Game Changers Championship 2024, torneio mundial realizado para equipes inclusivas da modalidade.
Outra equipe argentina que ganha destaque no cenário do Valorant é a Leviatan, também fundada no ano de 2020 e que se destaca como uma das equipes mais fortes mundialmente.
O time argentino teve, como principais conquistas neste ano, o título do VCT Americas, torneio regional realizado no continente americano, e a terceira colocação no torneio mundial. A equipe, que contou com Erick “aspas” Santos, jogador brasileiro apontado como um dos melhores do mundo no esporte eletrônico, começou o ano de 2024 sem resultados expressivos, mas mostrou, ao longo da temporada, uma evolução técnica que os permitiu chegar ao pódio da modalidade.

No Fortnite, o destaque vai para o mexicano Pollo (Exceed). Juntamente com a sua dupla, o estadunidense Peterbot, ele se sagrou campeão do FNCS Global Championship 2024, torneio mundial de maior expressão do jogo eletrônico, com premiação total de 2 milhões de dólares. Além de Pollo, vale a menção para K1ng (Dragons) e Fazer (ShindeN), a única dupla hispano-americana a ter se classificado para a disputa do mundial de Fortnite. Os argentinos terminaram na 22ª colocação.
No Rainbow Six (R6), mais um jogo FPS, a representatividade latino-americana no campeonato mundial, o BLAST R6 Major Montreal 2024, é bem mais numerosa. São 5 os representantes: os brasileiros Black Dragons, W7M esports, Team Liquid, FaZe Clan, além da Alpha Team, equipe Argentina e a única com membros de outros países da América Latina.
O Worlds 2024, campeonato mundial de LoL, foi marcante para o cenário competitivo brasileiro. De forma histórica, a paiN Gaming conseguiu passar da fase de entrada e se classificou para a chamada fase suíça. Desde a mudança do formato do mundial em 2017, jamais uma equipe brasileira havia conseguido esse feito, que foi atingido após eliminar a outra equipe latino-americana do torneio, a Movistar R7. No entanto, a paiN Gaming não conseguiu seguir adiante e foi eliminada na fase seguinte, após enfrentar três poderosos adversários: a Team Liquid, G2 Esports e a sul-coreana T1, que posteriormente viria a ser campeã mundial.

No Counter-Strike 2, a América Latina tem diversos representantes entre os principais do mundo, em especial as equipes brasileiras. Há 4 instituições brasileiras entre as 20 mais bem colocadas no ranking da HLTV: FURIA, paiN Gaming, MIBR e Imperial. A argentina 9z é a equipe hispano-americana mais bem ranqueada, colocando-se atualmente na 26ª colocação.
Desafios em relação ao crescimento
Embora seja um mercado expressivo de e-sports, a América Latina ainda encontra algumas barreiras que impedem um crescimento ainda maior nos países da região. Apesar disso, o cenário brasileiro consolidado acaba sendo uma exceção em relação aos demais.
Um dos principais fatores que limitam o crescimento latino-americano é a logística realizada na organização de eventos e campeonatos. Nem todos os países conseguem garantir uma estrutura de alto padrão para acomodar os jogadores e as equipes.
Outro peso determinante são as economias locais, que não conseguem atrair investimentos que banquem os custos operacionais das equipes e atletas. Dessa maneira, alguns times se veem obrigados a encerrarem suas atividades, como foram o caso desses nos últimos anos:
Hafnet E-sports, organização argentina formada em 2015, conhecida pelo seu time de League of Legends, que acabou em 2020.
Kaos Latin Gamers, organização porto-riquenha criada em 2012 e administrada, desde 2021, por um clube universitário chileno. Anunciaram, em 2021, que iriam entrar em um período de reflexão e avaliação sobre o projeto, em termos esportivos e econômicos. Apesar disso, encerraram suas atividades naquele ano.
Just Toys Havoks, organização mexicana que passou por diversas irregularidades em sua administração, fechando em 2018. Era conhecida pelo seu time de League of Legends.
O baixo nível técnico apresentado em algumas modalidades também gera desinteresse do público externo, que prefere acompanhar outras ligas ao invés das latino-americanas, e isso consequentemente também corrobora para que o cenário não consiga se expandir na região.
Apesar dos vários desafios que batem à porta dos países latinos, o exemplo do crescimento gradual do cenário brasileiro pode servir como inspiração aos vizinhos. O jornalista Wesley Pereira acredita que com calma e paciência, o potencial da região pode ser alcançado.
“Tudo é muito relativo. A gente falar e fazer projeções aqui é a coisa mais fácil do mundo, mas acredito que só vendo mesmo pra poder compreender se isso de fato vai acontecer, mas do meu ponto de vista eu vejo o crescimento sim”, analisa Pereira.
Conclusão
Para que a América Latina consiga se tornar uma região forte nos esports, é necessário um maior investimento, tanto na parte da infraestrutura, para a criação de centros de treinamento para os atletas, a fim de melhorar o nível das competições, quanto na atitude das próprias organizações, que devem promover a participação feminina nos esports e combater práticas que prejudiquem essa inclusão.
É necessário, também, que haja um foco em atrair o público latino americano, fazendo com que o interesse pelos esportes eletrônicos no continente seja transformado em qualidade técnica, tal como ocorre em campeonatos do outro lado do Oceano.
O processo de investimento em esports não se restringe apenas à parte financeira, estendendo-se, também, a pautas sociais. Tal necessidade é exemplificada, por exemplo, pelo relatório de 2024 sobre eSports da Pesquisa Games Brasil, que afirma que mais da metade dos usuários latinos que jogam videogames é representada por homens. Nesse sentido, organizações têm se mobilizado em criar medidas de incentivo à participação inclusiva nos jogos eletrônicos.
É possível notar a evolução deste cenário em certas modalidades de esports. Wesley Pereira analisou o crescimento do investimento das organizações nas equipes femininas. “Eu tenho visto crescimento, sim. Para falar a verdade, tenho visto até bastante expansões. Tenho visto não só organizações latino-americanas, mas também organizações brasileiras começando a investir, vice-versa”, afirma o jornalista.
Segundo Pereira, iniciativas quanto à inserção inclusiva e feminina nos games já se fazem presentes no cenário de esports. Ele cita, por exemplo, a ESL, maior organização de E-Sports do mundo, que organiza o Impact, circuito de competições de Counter Strike 2 voltado para o público feminino. Esse processo faz com que o universo dos esports “fortaleça cada vez mais os laços com o cenário feminino/inclusivo”. O jornalista complementa que tem visto bastante crescimento e acredita que essa vai ser a tendência daqui para frente.




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