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A Imortalidade do Dia dos Mortos na Mídia

  • Foto do escritor: Pensamento Jornalístico na América Latina
    Pensamento Jornalístico na América Latina
  • 20 de out. de 2024
  • 9 min de leitura

A importância da representação respeitosa da cultura mexicana em filmes como Macário e Viva: A vida é uma festa! e como esse dia se relaciona com as práticas brasileiras


(Foto: Reprodução)


Por: Jhennyfer Lima, Lara Fagundes, Lívia Ruela e Raíra Tiengo


Coincidindo com o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados na tradição cristã, o Dia dos Mortos, ou como é conhecido no México, Día de Los Muertos, é uma tradição mexicana de origem pré-hispânica – e era celebrada por povos asteca, maia, zapoteca e mixteca – que acontece nos dias 1 e 2 de novembro em todo o México, onde as festividades do Dia dos Mortos se desenrolam em uma explosão de cores e alegria de afirmação da vida. 


É uma ocasião em que os mexicanos honram e lembram seus entes queridos falecidos, acreditando que, nesses dias, as almas dos mortos voltam ao mundo dos vivos para visitar seus familiares. As celebrações variam conforme a região, mas em geral incluem altares coloridos chamados "ofrendas", que são montados nas casas e cemitérios para receber os espíritos. Nesses altares, são colocados objetos como fotos dos falecidos, velas, incenso, comida (especialmente pratos favoritos dos falecidos), flores (particularmente a "cempasúchil", ou cravo-de-defunto), e itens simbólicos como caveiras de açúcar. Os altares são montados com muito esmero e podem ter vários andares, cada um com um significado atribuído, como Terra, Paraíso, Submundo, etc. A forma circular do pan de muerto representa o círculo da vida e da morte, e as quatro conchas (ou ossos) em forma de cruz simbolizam os quatro pontos cardeais. 


A iconografia do feriado também é muito marcante, com destaque para as "calaveras" (caveiras) e as "catrinas", figuras esqueletais frequentemente vestidas com trajes elegantes e coloridos, simbolizando a aceitação da morte como parte natural da vida. O Día de Muertos é uma mistura de tradições indígenas mesoamericanas e crenças católicas trazidas pelos colonizadores espanhois. Essa combinação resulta em um feriado que, embora lidando com a morte, é vibrante e cheio de alegria. As pessoas veem esse momento como uma oportunidade de celebrar a vida, ao invés de lamentar a perda, com desfiles, danças e músicas.


Tal mistura não se limita somente ao México e diversas formas de celebrar o dia se difundiram pela América Latina. Voltando seu olhar para a data em terras brasileiras, os antropólogos Elisa Gonçalves e Weverson Bezerra comentam sobre as tradições brasileiras para a data “No México tem aquela energia mais vibrante, enquanto no Brasil temos o acinzentamento da morte como um todo” disse Elisa.


Além das tradicionais missas católicas, Gonçalves comenta que em sua terra natal - nordeste do Pará - existe o festival da iluminação dos mortos estudado por ela em uma de suas pesquisas. O ritual semelhante ao mexicano, tem o intuito de iluminar os caminhos dos que já partiram e além disso o consumo da “manicuera”, bebida típica feita a partir da mandiocaba e, servida em cuias na porta dos cemitérios.


(Foto: Reprodução)


A relevância da presença da mídia na cobertura dessas datas foi ressaltada por eles. Weverson comentou como a atenção para o cemitério é bem vinda “Essa midiatização é o único recurso que a família tem para saber o que está acontecendo no cemitério, não tem nenhum Instagram para falar que horas vai ser a missa”. A dupla ressalta que o dia tem sua importância pessoal para os familiares daqueles que partiram, como um momento de lembrança e reflexão sobre os falecidos. 


Por se tratar de um feriado cheio de significados e elementos vibrantes, a indústria cinematográfica não poderia deixar passar a oportunidade de retratar tais momentos ironicamente tão cheios de vida. Vários filmes e curtas foram produzidos com foco no Dia dos Mortos, alguns acabaram se tornando bem famosos. E aí, você conhece as obras que abordam esse evento e qual a importância dessa representação? 


Representação Midiática


O Auto da Compadecida (2000)


(Foto: Divulgação)


O longa-metragem dirigido por Guel Arraes e baseado na peça homônima de Ariano Suassuna retrata, por meio de uma história bem humorada, as questões relativas à morte, o perdão e a religião. 


O filme acompanha a história de alguns moradores de um pequeno povoado no sertão nordestino. Durante a vida, uma série de pecados ocorrem sem que haja muita comoção, contudo, quando um cangaceiro toma a cidade e mata essas pessoas a narrativa migra para o julgamento final, onde o destino pós-vida será decretado. 


João Grilo, o protagonista, tenta negociar com Deus e o Diabo para que seus pecados sejam perdoados, mas é só quando a figura de Nossa Senhora aparece que ele é finalmente absolvido e recebe uma nova chance para viver. 


O longa demonstra, em sua essência, como uma parte do povo brasileiro vê a morte e entende a relação dos vivos com os que já morreram. Dessa forma, a abordagem reflete que, através da religião, a cultura brasileira entende esse momento não apenas como algo inevitável à vida, mas como uma possibilidade de redenção.


Macário (1960)


(Foto: Divulgação)


Macário é um clássico do cinema mexicano e utiliza do Dia dos Mortos como pano de fundo para provocar questões filosóficas e existenciais. A história, baseada no conto de B. Traven, acompanha a vida de Macário, um homem pobre que, devido às injustiças sofridas na vida, recorre a fazer um pacto com o Diabo para escapar da fome e melhorar suas condições. 


A trama enfatiza o simbolismo da morte como uma parte intrínseca da vida, de maneira que a relação entre os mortos e os vivos perpassa uma série de tradições que perpetuam a existência daquele que já se foi. O drama mostra um olhar diferente sobre o Dia dos Mortos, uma vez que sua representação mostra, ao mesmo tempo, as celebrações e o lado sombrio das questões de vida e morte. 


O longa foi dirigido por Roberto Galvadón e é baseado no conto El Tercer Invitado, do escritor B. Traven. Lançado em 9 de junho de 1960, foi o primeiro filme mexicano a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e também foi indicado à Palma de Ouro no festival de Cannes. O contraste entre luz e sombra ajuda a criar uma atmosfera mística que reforça o sombrio da morte, ao mesmo tempo, o uso de símbolos da celebração do Dia dos Mortos, como caveiras, velas e oferendas, são dispostos de forma sútil, mas impactante, de maneira que a mensagem do que a morte representa na cultura mexicana fique à mostra durante toda a narrativa. 


Macário é considerado uma obra-prima do cinema latino-americano e um dos filmes mais importantes do México. Sua profunda reflexão sobre a vida, a morte e o destino, assim como sua representação rica das tradições mexicanas, o tornaram um marco cultural. É um filme que contribuiu e contribui para a reprodução da cultura mexicana e serve como exemplo no que se refere à representação do Dia dos Mortos.


Hasta Los Huesos (2001)


(Foto: Divulgação)


Hasta los Huesos é um curta-metragem animado dirigido e escrito por René Castillo, um animador mexicano. O filme foi premiado em 13 festivais de cinema mexicanos e internacionais, e indicado em 1, sendo 8 deles ainda em seu ano de lançamento. A história fala sobre um homem que foi enterrado vivo por engano e, por isso, acaba chegando até o mundo dos mortos ainda com seu corpo do mundo dos vivos.


O curta busca mostrar o protagonista aceitando a própria mortalidade enquanto já está entre pessoas que se foram. Isso é representado mesmo pelo próprio corpo do protagonista ainda estar ali, tornando visível o fato de que ele ainda está preso em sua vitalidade. Durante o filme, vemos o homem se conectar com o mundo dos mortos, com o simbolismo, primeiramente, de uma rosa branca.


Com uma animação feita em stop motion e pouquíssimas falas, o curta consegue trazer os sentimentos dos personagens por meio de música e cores, essencialmente pela interpretação de Llorana feita por Eugenia Léon, um canto fortemente ligado ao Dia dos Mortos. A representação mexicana, vinda diretamente de uma produção nativa, consegue emocionar e tratar de forma linda um tema tão sensível quanto lidar com a própria morte.


O Dia dos Mortos é representado durante o filme com as roupas e as flores tradicionais da grande comemoração e suas oferendas, além da aparição de Catrina, um ser tão importante para a cultura mexicana. Seu simbolismo chega com uma dança do protagonista com a deusa, ou melhor, com a própria morte, para então clarear o principal objetivo do filme: retratar a forma cultural de acreditar que ainda pode existir felicidade após a morte.


Festa no Céu (2014)


(Foto: Divulgação)


“Festa no céu”, ou “The Book of Life” no original, é uma animação americana dirigida por Jorge R. Gutiérrez, um animador e escritor mexicano, e produzida por Guillermo del Toro, um cineasta também mexicano. O filme é narrado como um tipo de fábula para crianças em um museu, contando a história de uma aposta entre Catrina e Xibalba, os representantes dos reinos da morte, que consistia em decidir quem dominaria os dois reinos, o dos lembrados e o dos esquecidos, assim, eles escolhem Maria, Joaquim e Manolo. Em uma espécie de triângulo amoroso, Catrina escolhe Manolo e Xibalba, Joaquim, ainda quando crianças. Após passarem vários anos separados, os três se reencontram já adultos, então, podemos assistir a forma como eles amadureceram com o tempo. 


Joaquim é um lutador, criado para ser um homem forte, um pouco convencido e arrogante por ter recebido o privilégio da proteção de Xibalba. Ele é considerado o herói da cidade e quer usar toda a sua fama para conquistar Maria, a qual acabara de retornar de anos estudando na Espanha. Manolo é mais sensível, embora demonstre ser tão forte quanto Joaquim. Ele busca se tornar músico e foge de suas tradições familiares, as quais eram formadas unicamente por toureiros. É por esse personagem que o telespectador é melhor introduzido à ideia do Dia dos mortos. 


A história de Manolo já é iniciada explicando a importância de se lembrar daqueles que se foram para que, mesmo mortos, estejam vivos no reino dos lembrados. O Dia dos mortos é apresentado como uma forma de manter a memória acesa e conseguir sentir aqueles que já morreram por perto, por isso, é uma grande celebração. Isso também é esclarecido quando Manolo reencontra sua família e todos eles contam sobre a festa no céu, que seria justamente no reino onde todos ainda possuem pessoas vivas para lembrá-los. Por outro lado, o reino dos esquecidos é triste e enevoado. 


Gutiérrez, o diretor do filme, contou, durante a Comic Con de 2014 em San Diego, que seu maior objetivo com “Festa no céu” foi criar algo que ele nunca viu durante a sua juventude, queria retratar a cultura mexicana na animação de forma única, tanto para o México, quanto para o restante do mundo. Desse modo, o filme traz uma representatividade do país vinda diretamente dos olhos de um nativo, tendo o principal objetivo de colorir a história do Dia dos Mortos para todos poderem conhecer e entender de forma clara e respeitosa.


Viva! A vida é uma festa (2017)


(Foto: Divulgação)


O filme "Viva! A Vida é uma Festa" (título original: Coco), lançado em 2017 pela Pixar Animation Studios e distribuído pela Disney, é uma animação inspirada justamente na celebração do Día de los Muertos no México. A história gira em torno de Miguel, um garoto apaixonado por música que sonha em se tornar um grande músico como seu ídolo Ernesto de la Cruz, mas enfrenta a resistência de sua família, que proíbe qualquer tipo de música por causa de uma antiga desavença familiar.


O enredo se desenrola quando Miguel, acidentalmente, entra na Terra dos Mortos durante as celebrações do Día de los Muertos. Lá, ele encontra seus antepassados e descobre a história de sua família, compreendendo mais sobre suas raízes e a importância de lembrar e honrar os entes queridos. Ao longo da jornada, Miguel faz amizade com Héctor, uma alma que o ajuda a entender o valor da família e da memória.


Produzido por Darla K. Anderson, o filme contou ainda com a direção de Lee Unkrich e Adrian Molina. Molina, de ascendência mexicana, trouxe uma perspectiva autêntica e uma sensibilidade cultural para a história, ajudando a garantir que a representação do Día de Muertos fosse respeitosa e precisa. Lee Unkrich ainda destacou: “Sabíamos desde o começo que tínhamos uma enorme responsabilidade de fazer isso da forma certa. O Día de Muertos é uma tradição muito amada e tem um significado profundo para muitas pessoas. Queríamos ser o mais respeitosos e autênticos possível, ao mesmo tempo em que contávamos uma história universalmente relacionável sobre família e lembrança”, reforçando a necessidade de uma retratação respeitosa e fiel da cultura mexicana.


Salma e o Grande Sonho (2019)


(Foto: Divulgação)


Salma e o Grande Sonho é uma animação infantil dirigida por Carlos Gutiérrez Medrano e produzida pela Metacube. O filme aborda o feriado do Dia dos Mortos de maneira leve e fantasiosa, buscando retratar as simbologias do dia de forma compreensível ao público infantil. 


A narrativa acompanha Selma, uma adolescente órfã que reside em uma cidade chamada Santa Clara. Na sede de descobrir sobre a vida dos pais que não chegou a conhecer, Selma encontra um livro mágico que revela histórias sobre o passado dos mortos e embarca numa aventura de autodescobrimento. A animação permeia as tradições mexicanas e desenvolve, sobre a história de Selma, as questões relativas à importância do legado familiar e das tradições do Dia dos Mortos.


Assim como em outras animações mexicanas (ou que representam o Dia dos Mortos no México) as cores vibrantes são aliadas aos elementos tradicionais da cultura mexicana para envolver os telespectadores na atmosfera do feriado. A animação não é tão sofisticada quanto Coco (Viva - A Vida é uma Festa), que foi lançado pouco antes da estreia de Selma, contudo, a trama é construída valorizando as tradições do país e tem um valor significativo na representação midiática da cultura latina. 


Trazer o Dia dos Mortos sob a perspectiva de uma protagonista órfã faz refletir, em meio às questões de pós-vida, a importância dessa celebração para aqueles que não conhecem o seu passado e, portanto, que não cultuam o legado familiar. O filme retrata, de forma suave e bem humorada, a efemeridade da vida e a importância de colher memórias pelo caminho.

1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
21 de out. de 2024

Olá pessoal, boa noite. O material ficou muito bom. Adorei a forma dada ao texto e em especial a relação que vocês estabeleceram entre a apropriação "midiática" e as festas populares. Parabéns.

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